9 de setembro de 2013

Absorta (parte II)

Eu te quero assim como o dia transforma-se em noite
Suave e devastador.
Nos preencher com o gatilho do desejo e o céu do mar.
Sermos infinitos apesar dos finitos.
E dos vazios fazer poesia.
Para que se percorram nossos recantos como rios e gaivotas
E me contornes as curvas e evapore minha desordem.

Cozinhar nossa ficção em fogo e brasa
Com sangue nas mãos.
Dançar em teu cemitério de solidões.
Sujar tua roupa com batom e sonhos.
E te oferecer minha alma como ostra produzindo sua pérola.
Compensando as rachaduras do teto com sorrisos de fim de sábado.  

Escrever um manifesto na tua pele de aço:
Que me queiras como fome na madrugada.
E adormecer sobre teu peito soturno.
Cantar a tristeza do pertencimento efêmero.
Beber da tua saliva a nossa literatura ficcional.
E ciciar às paredes estrofes de uma cidade abandonada.
Carregando nos cílios e nos pulsos a fragilidade do nós

Entre teus caminhos: render-me.
Como um suíno desespera o livramento.
Vender meu peixe enquanto quero plantar flores.
Me fazer de piano para teus sentidos levianos.
Alimentar minhas pernas fracas com a solidão dos acordeons.

E me encontrar absorta após todos esses anos.
E então perceber que, sem isso, ficaria nua.

3 comentários:

Jessie Giulia disse...

"Escrever um manifesto na tua pele de aço:
Que me queiras como fome na madrugada." Aquelas coisas que a gente lê com os olhos cheios, só da vontade de continuar lendo. Adorei o rítmo do teu poema, moça. Lindo mesmo! Prababéns.

R. disse...

Incrível!

Anônimo disse...

Teus escritos, de certa forma, me alimentam. <3